sábado, 10 de outubro de 2020

Não pertencia aos cocos

 

 

    Dror, trabalhava entre os cocos há quase cem anos - metade de sua vida. Quando olhava pela janela avistava os cocos. Eram árvores lotadas de cocos que balançavam com o vento. Muitos cocos caiam o tempo todo, e as vezes, despencavam nas cabeças de alguns desavisados.

 

    Toda manhã, durante dias, meses e ao longo dos anos, Dror, repetia sua rotina - acordava as seis horas da manhã para trabalhar. No trajeto, que durava vinte minutos, ele, as vezes, sonhava com lindas dançarinas, porem, elas, insistiam em  fazer malabarismos com cocos, o que transformava o sonho em pesadelo. Seu desjejum, engolido as pressas, era a base dum suco feito com polpa de coco. E, ainda assim, quando lembrava, levava bolachas de coco para comer na metade da manhã.

 

    No verão, durante a caminhada, cercado pelos dois lados por majestosas palmeiras até o local do almoço, as folhas, faziam a vez de aliviar o estafante calor. No entanto, nos dias de chuvada, essas mesmas folhas já não protegiam tanto assim.

 

    Os chefes, distribuídos no coqueiral, vinham com ideias do sul asiático, já que não sabiam ao certo onde originou o coqueiro - preferiam acreditar que mereciam outra cultura.

 

   Cocos nasciam, crescia e eram colhidos; cocos caiam por força da natureza. E assim, o grande coqueiral já estava ali há pelo menos quatrocentos anos. Os cocos, eram sempre os mesmos - já as pessoas... algumas delas, evoluíam – outras, se transformavam em uma espécie de mutação, e assim por diante.

 

    Passados milhares de luas e, Dror, ainda encontrava-se naquela mesmice. Sem apresentar qualquer sombra de dúvidas - restavam apenas as sombras das folhas dos coqueiros...

 

    Porem, numa segunda-feira bronca, onde os cocos seriam normalmente colhidos, Dror, substancialmente sentiu uma vontade de sonhar: parou embaixo de um coqueiro velho e improdutivo; sentou-se como se a vida fosse findar em algumas horas - retirou uma caneta do bolso de sua camisa com estampas de cocos; pegou um pequeno e mal-usado caderno de anotações que deveria ser usado pelo coqueiral como um "balsamo" nas tempestades de ideias que, por ventura, poderiam vir a surgir nas cabecinhas ocas dos trabalhadores. palavras ultimas, dita por um dos chefes num dos momentos de soberba os quais eles todos faziam questão de dividirem para afagar os egos inflados como um coco gigante.

 

     Em questão de horas, Dror, havia preenchido todo o caderno com seus sonhos - e o mais incrível - é que nesses sonhos não haviam nenhum tipo de coco. Então, razoavelmente, ele não poderia sequer pensar em apresentar aos chefes o que idealizara através de seus possíveis devaneios (...) Com tudo, naquele inimaginável momento, Dror já não se preocupava com mais nada, pois, seus maiores sonhos; aqueles que recusavam-se a passar de dentro para fora, haviam emergido das areias.

 

    Com o caderno em mãos, ele foi até a casa grande, limpou os pés, tomou sua ultima xícara de água de coco, e sem ao menos bater na porta da sala onde habitavam os chefes, ele entrou. Ao abrir a porta, Dror congelou de imediato e seus músculos não responderam por alguns segundos.

    O que ele vira, parecia inacreditável para seus olhos que, com os cocos, habituados estavam. Os chefes estavam todos de cara colada ao monitor e nem sequer haviam percebido a intromissão do sujeito.

 

    Sobre uma mesa enorme e redonda, haviam várias garrafas vazias de refrigerante cola, e ao lado, um freezer com portas de vidro abarrotado de refrigerantes de todas as possíveis marcas.

 

    Sem ao menos dizer uma palavra e, sequer, ter dado o tempo para que eles o interrogassem sobre a sua inesperada presença, Dror, deixou o caderno sobre a mesa junto as garrafas vazias e saiu apressadamente como se nada tivesse acontecido.

 

    No dia seguinte, após todos esses anos, Dror não aparecera para seu infortúnio diário, e sequer havia avisado sobre sua ausência. As faltas se repetiram por vários dias e ninguém sabia de seu paradeiro. Souberam apenas que ele havia mudado com sua família para longe das terras dos cocos.

 

    Hoje, o número de coqueiros triplicaram desde a fuga de Dror, e seu lugar, sua função: fora absolvida por um jovem aprendiz. Os chefes continuam os mesmos, e ainda se refrescam com refrigerantes toda tarde de verão, sem falar que durante o inverno, consomem muito chocolate quente.

 

    Dror, comprou uma banca numa apreciada e abissal feira do local onde mora; vende todo tipo de frutas, legumes e verduras; diariamente, ele faz questão de conversar sobre qualquer assunto com todos seus clientes e donos de bancas vizinhas; ganha pouco mais da metade do que recebia trabalhando entre os cocos.

    Ah, sem esquecer que Dror, adora tomar refrigerante nas tardes de calor.

 

    Dror: Nome judaico masculino - Significa Liberdade. Pássaro

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Liberdade assistida

  A tia exibida do meu amigo João, disse que antes, tudo era bom! Ela tinha uma viril empregada chamada Maria, filha de dona Jandira, dom...