sábado, 10 de outubro de 2020

Homem Moderno

 

Na fatídica noite duma quinta-feira enigmática e fria, onde o vento maltratava as majestosas palmeiras que enfeitavam a fachada de um monumental prédio, rodeado de vidros espelhados, no qual se instalara há pouco tempo, uma prestigiada clínica.

 

Estranhamente neste dia, gatos e gnomos atravessavam as ruas revezando-se em perseguições - pra lá e pra cá - era como se quisessem anunciar algum acontecimento, seguindo um tipo de ritual (...)

 

Era meados de julho, por volta das 20h30, num horário estranho para uma consulta e que eu sequer havia percebido, afinal, estava em férias. Aguardava por minha vez, todo luminoso e descontraído, ao lado de minha querida esposa, admirando o gigantesco empreendimento e, totalmente contemplativo pela formosura dos móveis e no fino acabamento usado naquele refinado consultório.

 

"- Por favor, senhor, pode entrar pela porta a minha esquerda", disse a recepcionista

 

"- Muito obrigado" respondi prontamente, dirigindo-me a porta de vidro branca.

 

"- Boa noite doutor"

 

"- Boa noite Senhor! Como vai? E o que o traz até mim?"

 

"- Bem doutor... na verdade... minha mulher, preocupada e atenta em tudo... é que vem insistindo nesta consulta... e cá estou pra falarmos sobre a vasectomia. Sabe como é... já completei quarenta... tenho um filho com dezessete anos e, resumindo, depois de muito diálogo, análises e ponderações, decidimos finalmente por não mais ter filhos, e contrariar alguma moral vigente"

 

"- Senhor, ultimamente utilizamos de muita reflexão e bom senso quanto a essa delicada cirurgia - delicada, num contexto de futuro, digo... e, para quem tem menos que dois filhos ou, nenhum... para isso, será necessário que...possamos discutir amplamente o assunto "( enfim, nada que pagamento a vista, não possa resolver)

 

"- Bem senhor, aproveitando a consulta e já que chegou a tão famosa meia idade, que tal providenciarmos uns exames preventivos?"

 

"- É tem razão. Não vejo problemas" Disse eu imediatamente, pois a consulta havia sido pago mesmo, e porque não aproveitar uma geral nesta máquina dos anos 70?

 

Após os exames básicos de consultório, pediu-me o médico então: "Deite-se, por favor."

 

"- Hã... deitar? Ué... por que?" Disse eu em pensamento.

 

"- Por favor, pode baixar a bermuda". Pediu-me o médico assobiando uma musica estranha que eu já havia escutado... mas naquele momento, não me lembrava quando nem onde.

 

"- A cueca também." Disse ele.

 

"- A cueca?, mas... é... bem... é... afinal doutor... qual o problema e por que devo baixar a cueca?" Disse eu a ele sem pestanejar

 

"- Então, vamos aproveitar o ensejo e fazer o exame da próstata!" Afirmou ele, colocando as luvas e imediatamente apertando um enorme tudo e passando algo gelatinoso nos dedos. ( Tudo planejado )

 

"- Mas... mas... é que... eu... não... eu... não vim aqui pra... eu... eu... e.. o... PSA com exa... de san...? é... eu...” Instante esse que eu não conseguia sequer formar uma palavra.

 

"- Meu amigo, relaxe e dobre as pernas, por favor!" Retrucou o médico.

 

Daí em diante a formalidade já tinha ido pro saco, digo, perto do saco... sei lá...

 

E o que é pior. Onde estão todas as brincadeiras que os homens disfarçam para dizer que não terão medo? Diminuir a luz, pedir um vinho, colocar uma música, segurar no negócio do médico pra ver se é o dedo mesmo... etc, etc.

 

Pois é! Nessa hora, preso àquela sala, não ha tempo pra nada (...)

 

Eu, desesperado, dividindo meu pensamento entre sair correndo levantando a bermuda chutando a porta de vidro branca; fechar meus olhos, apertar bem o esfíncter ou, radicalizar de vez, cagando no dedo daquele filho da puta diplomado.

 

"- Puuuuuuuta Que Pariuuuuu! Porr... não, porra não, é melhor ficar no PQP mesmo!" Gritei em pensamento.

 

Lembra daquela musica que eu não me recordava? Pois então, não sei se fora o estado psicológico que eu me encontrara naquele instante, mas, agora tenho certeza que ele assobiara o tema do clássico filme: Tubarão.

 

Realmente tudo não durou mais que um ou dois minutos no relógio, mas... pra mim, matematicamente, foi elevado a eternidade!

 

"-Meu querido, pode se recuperar por ai e quando estiver pronto, poderemos conversar" Dizia o médico em voz alta na sala ao lado.

 

Depois de tudo ainda vem querendo agradar(...) "Vá pro diabo que o carregue" pensei educadamente.

 

Nada mais restando a não ser minha dignidade, dirigi-me vagarosamente até a sala onde o médico me esperava em sua mesa - cantarolando feliz da vida e, imaginei eu que o FDP poderia estar pensando: mais um, mais um e mais um...

 

Sentei-me com a metade da bunda na cadeira que já não era mais tão macia, apoiando-me na mesa daquele M A R D I T O pra eu não correr o risco de cair. (Era só o que faltava.)

 

Por fim, após uma esclarecedora conversa chegando ao tranquilo veredito de que tudo estava normal. " Ufa! pelo menos algo de compensador" Pensei.

 

Despedi-me do cidadão. Abri a porta, sem olhar para trás, sai lentamente manquitolando idêntico ao cão na cena do filme Dr. Dolittle. ( Isso, pode rir a vontade... )

 

O corredor tornou-se uma pista de atletismo em linha reta. E, quando finalmente abri a porta, avistei minha querida esposa em pé. Parei e olhei para ela com minha cara de sofrimento indisfarçável.

 

Ela que sempre foi prestativa e quase um anjo perdida na Terra, olhou-me firme por um segundo e, num flagrante de desrespeito, sem ao menos tentar disfarçar, caiu na gargalhada que até dava eco na sala.

 

 Ahhhh sua traidora!” Ela me paga, ah se paga!

 

Eu, tentando acelerar o passo com aquele monte de requisição de exames nas mãos, sem ao menos olhar para os lados e torcendo pra não encontrar nenhum conhecido... E, como se não bastasse, a ardida da recepcionista grita: "-SENHOR, POR FAVOR, PRECISO CARIMBAR OS PEDIDOS DE EXAME!"

 

Com a ultima gota de dignidade, desvio da saída com as pernas juntas pra não escorrer aquela meleca escorregadia que molhava minha bunda e vou até a recepção - entrego as folhas gigantes do plano de saúde. Alias, nunca entendi por que tamanho exagero de folha (?)

 

Sem ao menos dizer boa noite à recepcionista, saio tentando manter a postura e entrego as chaves do carro à minha querida, feliz e encantadora esposa, e digo: "- Sem qualquer comentário, pergunta ou sinal de sorriso nessa sua raia face..., por favor!, dirija o mais rápido possível e não pare nem nos semáforos"

 

 

 

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