sábado, 19 de dezembro de 2020

usando verbo e tritura-cabeças moderno

 Juntos há muito tempo
entre vindas e idas
como se fosse banda envelhecida
nem tanto pela idade
- era rotina administrativa
disse a terapeuta de duas coisas iguais
tentativa tantas foram
oxalá, como tentaram
as conversas desencontradas e o sexo:
destituído
empregos, também exonerados, despedidos...
tudo tão claro
feito luz em corredores de hospitais 
e sois em contraste com areia branca
uma fotofobia
Caótico mundo regional
de uma só rua, aparentemente
Os anos não mais contados
e sim
expurgados 
do álbum
das memórias, em geral
...
foi quando, numa noite casual
da descrença habitual
tentaram, pela milésima nova vez
uma lubricidade de amor, como dever e deveriam
então, sobreveio o inédito, a ruptura das desventuras
do que apresentava-se como punição de vida
O contentamento chegou para ambos
gratificação pelos tempos esquisitos
de desagrado total
...
A madrugada e os anos mais, escorreram como águas límpidas
árvores frutíferas
então...
O amanhecer que prometia nova idade
recusou-se
no início da manhã:
souberam da notícia
a progênita e única, falecera
no início da madrugada fértil
não tão generosa assim
...
Vida infértil que exigiu contrapeso
ou  fado carregado?
...
Juntos há muito tempo

quinta-feira, 17 de dezembro de 2020

para não esquecer que pisamos nas flores

 
Imagina uma guerra civil - confronto armado; toda aquela nossa paz tropical, de um pais supostamente abençoado' sendo desmascarado; nosso título de povo amistoso, devolvido; imagina os endinheirados e os desesperados fugindo por mar aborrecido e terras empoeiradas; uma amplitude do desalento e da fome que muitos sentem; imagina o sequestro da liberdade metida e mentida com suas máscaras; imagina nós, brasileiros, em ruínas: repartindo pão, um pedaço de teto, dividindo a palavra saudades com outras nações, longe das jabuticabas e dos carnavais... imaginem só, antes do ato(...)

sexta-feira, 13 de novembro de 2020

parecidos

cavaleiro que prometeu ser cavalheiro
não aprendeu nada, e depois de tê-la, apreendeu
pois, o comprimento de suas calças não valeu
cumprimentar seu pai
que repetira, de seu avô...

dos homônimos

chego cedo
para não ceder lugar
sou sim caminho para o egoísmo
eu, tu, ele, nós, vós, eles
pessoais e pessoas


título nenhum, pouco importa

Acender o assento
para que ninguém possa ascender
pois então, cassaram meu cheque
não há conserto que repare
vamos cerrar agora
antes que o fogo tome minha cela

domingo, 25 de outubro de 2020

terça-feira, 20 de outubro de 2020

bem-estar

Queria ser um poeta
ser uma obra
quem sabe uma música;
uma escultura
uma tela, que mesmo imóvel, presa na inépcia
traga a placidez momentânea 
Queria eu, não ter as culpas 
não agredir o tempo
Agora...
pelo presente: passo a querer
e trago do passado, apenas o tirocínio
dos feitos e suas mensagens; do que vi passar
dos que me guiaram
hão de querer, o futuro desvendar
Imperioso?
Afirmação?! 
Ambiguidade?
Vale-me o que desejo;
com a seiva do corpo
olhos que sabem sorrir
longe do isolamento
e, perto o bastante, da vontade! 

sábado, 17 de outubro de 2020

Preliminar... 
Não fique surpresa se eu preferir sentar-me a poltrona; apenas para admirar - até que suas mãos se cansem e você me carregue com seus olhos em delírio... 
 

"Seus saltos a deixam vibrante; é como uma transformação diária que anseio; um caminho a lubricidade"

quinta-feira, 15 de outubro de 2020

Arte da espera

Por cima dos ombros, mexe nos cabelos e separa as pontas duplas; tira, e ajusta a presilha; prendendo-os em seguida. Solta e volta a separar as pontas. Olha para as unhas e empurra as cutículas; gira os anéis. Pausa. Separa as mãos e sobe para os brincos, apertando-os com as pontas dos dedos. Volta aos anéis e imagina que poderia comprar mais um ou, dois... retorna as pontas e desfaz alguns fios. Balança os pés e observa os saltos da sandália. Alonga o pescoço. Guarda a presilha e substitui por um elástico. Prende os cabelos e logo em seguida, solta-os. Brinca com o elástico nas mãos e, como se fosse uma primeira vez, amarra-os. Esquiva-se dos olhares. Puxa a blusa. Estala os dedos. Mantem a postura. Massageia a nuca. Meche nas pulseiras. Dobra as pernas. Olha para o relógio e depois para a bolsa; vasculha todos os cantos; quem sabe um chocolate. Nada feito. Contenta-se com um chiclete. Com o polegar e o indicador ao mesmo tempo, desliza-os sobre os lábios. De novo aos cabelos; solta-os, e escorre com os dedos entre eles; une-os em forma de rabo e volta a prende-los. Novamente à bolsa; procura um espelho. Acha. Confere a maquiagem - um lado e outro - certifica-se do batom persistindo nos lábios. Ainda na bolsa, depois de alguns zíperes, não resiste: pega o celular - checa as mensagens - tenta uma, duas, três ligações... Então, vem um suspiro, um silêncio largo...sem movimentos. Respira fundo. Fecha a bolsa. Regressa aos cabelos...

Era uma esfera, inicio de primavera. O inverno ainda se despedia, com o vento que soprava; as auroras se despiam; foram momentos de encontros com as sombras das nuvens que passavam; raios de luz penetravam o solo; metódica foi a criação. E a nós, o que restou...?Exaurimos de certo modo; pessoas dizem possuir muitos bens, e seus pais sequer foram avisados. Ó massa ignara que trás dolência(...!) 

quarta-feira, 14 de outubro de 2020

Velho e veloz

Hei de não querer que o tempo seja meu Deus eterno; hei de existir com ele, mas não para ele... tempo, esse mandante incessante que nos carrega nos braços; sua relação douradora com espaço matéria e energia

sábado, 10 de outubro de 2020

Num sinal de transito por aí

 Um pedestre e oráculo nas horas vagas que aguardava para atravessar a avenida do estado (aos quintos com regras para nome próprio) na conturbada e masturbadora cidade de são paulo; fitou-me entre outras dezenas de pessoas e disse:

- O gigante acordou! Ele está prestes a devorar nossas almas. Irá nos poupar o trabalho de ter de voltar ao pó, e ainda assim, um outro esforço de ter de limpar esses restos últimos da existência humana na terra.

Percebi que o devaneio ou desejo, seja lá qual for; era relacionado a um grande asteroide pronto para colidir com nosso planeta.

- Seja bem-vinda, ó grande estrela! Acabe de vez com nossa estupidez e mesquinhez! Faça-nos dizer adeus a Deus; e que ele agora, crie uma nova espécie: mais aterradora ainda do que essa que está por desaparecer (...!)

O sinal abriu. As pessoas voltaram-se para tudo o que parecia ser normal. O profeta momentâneo, então, deixou de me fitar. Pegou o celular e consultou rapidamente suas mensagens. Guardou o aparelho no bolso, e seguiu apressadamente atrás do fluxo de pessoas que atravessavam`a avenida.

Estatisticamente

 

Estamos numa época de mudanças ou, seria mudança de época?! Os contos de fadas, príncipes e princesas perduram, porém, não mais convencem.

O aspecto evolutivo não está mais por conta da ciência, acredita-se. As procuras que são constantes, sempre acabaram na metafísica. " Não deixeis cair em tentação; mais livrai-nos do mal". Qual seria esse nosso melhor mal?

Agora, nos vendem motivações com data de validade. Prometem-nos o além-mundo(...) Num mundo conectado; por uma conexão perfeita e de exclusão. As estatísticas fazem amostragens. Somos bilhões de vidas contadas - como se fosse um processo distópico e apocalíptico.

Deus e deuses nos servirão de escudos. Seria medo da verdade? Conhece a ti mesmo, e mantenha-se perdido; torna-te quem tu és, e tenha a possibilidade da liberdade.

Pelo mais incrível das insistências - nós humanos, ainda gladiamos - e, deixamos para os animais, seres irracionais; a necessidade de luta pela sobrevivência.

Até aqui, as linhas parecem confundir. É bem possível e até provável - como nas estatísticas que nos acompanharão por toda eternidade, até nossa absolvição.

 

Portanto, são essas, as poucas linhas que me permitem...

Minha porta já não faz mais vento quando fecha

 [Sempre acreditei que necessitamos de fibras e educação
e,
a vida diz:
uma coisa de cada vez;
não seja urgente demais
E do eco ela retorna: A vida já passou
perdeu seu tempo!]
Fui à praia...
Um forte vento batia, em todas as janelas da pequena casa que vulnerável era diante da força das ondas que quebravam infatigavelmente.
É nesses dias de ressaca do mar, que eu percebera a magnitude do oceano - podendo de forma viril - recuperar minhas vontades...****
((Ouçam o que tenho a dizer!))
NUM SÓ DIA é possível atravessar rios de problemas; enfrentar luxurias da mente; contrapor a existência; amaldiçoar o momento e deflagrar sua ira para o mundo(...) Num outro dia... daqueles em que as nuvens se afastam, é possível arrepender-se
Um coração metafórico
não é uma caixa limitada,
tampouco uma sala ampla
para apenas escolhas afetivas.
Essa figura vermelha e folclórica
de sentido…
tem de utilizar paredes móveis –
se adaptar ao que é aceito 
e lá dentro, as coisas se transformarão.

Se algo der errado, um de meus receios
será, com a noite;
com as sombras da madrugada;
com as incertezas e surpresas dos sonhos.
e
durante o dia,
será possível que minha alma se distraia
com as rotinas e imagens...
 
...sempre acreditei que necessitamos de fibras e educação

Liberdade assistida

 A tia exibida do meu amigo João,
disse que antes, tudo era bom!
Ela tinha uma viril empregada chamada Maria,
filha de dona Jandira,
doméstica e neta da mucama Nastácia;
mulheres fortes, trabalhadeiras e benzedeiras.
Maria, podia dormir no quartinho ao lado da lavanderia;
levava as sobras de comida para casa;
ganhava vestimentas
e até panetone no natal.
É, mermão
a coisa já não anda fácil não(...)
Dia desses
Maria foi pedir registro em carteira
pra tia do João.
Não teve jeito não, nega.
Maria, agora, faz faxinas como diarista;
fica pulando e cantarolando de galho em galho,
feito passarinho solto.
Vê se pode isso, brow?!,
ela diz que vai até voltar a estudar.
- Ahhh se a mucama Nastácia visse ou ouvisse isso, não acreditaria

E se...

Irei direto pra uma cafeteria
ler um jornal;
ver as palavras, frases, fotos e fatos de sempre.
Comprarei um maverick v8.
Reformarei uma kombi;
encherei de crianças
e visitaremos feiras literárias, livrarias, sebos e bibliotecas possíveis.
Comerei pastel... muito pastel.
Criarei ovelhas e cabras.
E quem sabe - me transformar num bode
Farei uma lipo no nariz;
pedirei meu passaporte,
tomarei um litro inteiro de Passport,
e irei à china ensinar mandarim ( sic)
Darei gorjetas aos pobres e paupérrimos  
não porque é caridade
ou um ser cristão...
mas, porque terei sobras
e com certeza
não me faltarão croissant com vinho.
Não atravessarei filas e sinais vermelhos.
Respeitarei faixas de pedestre
e cruzamentos de vias...
Terei um monitor de 40"  
junto dum computador com uns puta teras;
Livros Muitos livros - uns mil... dois mil, terei
Para mim,
todos e todas serão bonitos;
não lindos e lindas, que enjoa.
Socorrerei parentes
e parentes dos meus "parênteses" 
Com receio assombroso de perde-los:
abraçarei ainda mais meus amigos e amigas...
Ahhhh!, os verdadeiros amigos,
onde estarão a essa hora (...?)
Discutirei política na língua dos bem sucedidos –
aprenderei: inglês,  francês, árabe,  guarani e talvez aramaico...
Enfim, serei mais um pobre milionário
à procura da tristeza tentando convence-la a sorrir.
- Então,  quais as possibilidades ou probabilidades mesmo?
- Hum... deixa ver... 1 em 50 milhões, creio eu.
- Ah tá!

Imagem rápida, pra não lembrar que pisamos nas flores

 

Imagina uma guerra civil - confronto armado; toda aquela nossa paz tropical, de um pais supostamente abençoado' sendo desmascarado; nosso título de povo amistoso, devolvido; imagina os endinheirados e os desesperados fugindo por mar enfurecido e terras empoeiradas; uma amplitude do desalento e da fome que muitos já sentiram; imagina o sequestro da liberdade e suas máscaras; imagina nós, brasileiros, em ruínas: repartindo pão, um pedaço de teto, dividindo a palavra saudades com outras nações, longe das jabuticabas e dos carnavais... imaginem só, antes do ato(...)

 

Não pertencia aos cocos

 

 

    Dror, trabalhava entre os cocos há quase cem anos - metade de sua vida. Quando olhava pela janela avistava os cocos. Eram árvores lotadas de cocos que balançavam com o vento. Muitos cocos caiam o tempo todo, e as vezes, despencavam nas cabeças de alguns desavisados.

 

    Toda manhã, durante dias, meses e ao longo dos anos, Dror, repetia sua rotina - acordava as seis horas da manhã para trabalhar. No trajeto, que durava vinte minutos, ele, as vezes, sonhava com lindas dançarinas, porem, elas, insistiam em  fazer malabarismos com cocos, o que transformava o sonho em pesadelo. Seu desjejum, engolido as pressas, era a base dum suco feito com polpa de coco. E, ainda assim, quando lembrava, levava bolachas de coco para comer na metade da manhã.

 

    No verão, durante a caminhada, cercado pelos dois lados por majestosas palmeiras até o local do almoço, as folhas, faziam a vez de aliviar o estafante calor. No entanto, nos dias de chuvada, essas mesmas folhas já não protegiam tanto assim.

 

    Os chefes, distribuídos no coqueiral, vinham com ideias do sul asiático, já que não sabiam ao certo onde originou o coqueiro - preferiam acreditar que mereciam outra cultura.

 

   Cocos nasciam, crescia e eram colhidos; cocos caiam por força da natureza. E assim, o grande coqueiral já estava ali há pelo menos quatrocentos anos. Os cocos, eram sempre os mesmos - já as pessoas... algumas delas, evoluíam – outras, se transformavam em uma espécie de mutação, e assim por diante.

 

    Passados milhares de luas e, Dror, ainda encontrava-se naquela mesmice. Sem apresentar qualquer sombra de dúvidas - restavam apenas as sombras das folhas dos coqueiros...

 

    Porem, numa segunda-feira bronca, onde os cocos seriam normalmente colhidos, Dror, substancialmente sentiu uma vontade de sonhar: parou embaixo de um coqueiro velho e improdutivo; sentou-se como se a vida fosse findar em algumas horas - retirou uma caneta do bolso de sua camisa com estampas de cocos; pegou um pequeno e mal-usado caderno de anotações que deveria ser usado pelo coqueiral como um "balsamo" nas tempestades de ideias que, por ventura, poderiam vir a surgir nas cabecinhas ocas dos trabalhadores. palavras ultimas, dita por um dos chefes num dos momentos de soberba os quais eles todos faziam questão de dividirem para afagar os egos inflados como um coco gigante.

 

     Em questão de horas, Dror, havia preenchido todo o caderno com seus sonhos - e o mais incrível - é que nesses sonhos não haviam nenhum tipo de coco. Então, razoavelmente, ele não poderia sequer pensar em apresentar aos chefes o que idealizara através de seus possíveis devaneios (...) Com tudo, naquele inimaginável momento, Dror já não se preocupava com mais nada, pois, seus maiores sonhos; aqueles que recusavam-se a passar de dentro para fora, haviam emergido das areias.

 

    Com o caderno em mãos, ele foi até a casa grande, limpou os pés, tomou sua ultima xícara de água de coco, e sem ao menos bater na porta da sala onde habitavam os chefes, ele entrou. Ao abrir a porta, Dror congelou de imediato e seus músculos não responderam por alguns segundos.

    O que ele vira, parecia inacreditável para seus olhos que, com os cocos, habituados estavam. Os chefes estavam todos de cara colada ao monitor e nem sequer haviam percebido a intromissão do sujeito.

 

    Sobre uma mesa enorme e redonda, haviam várias garrafas vazias de refrigerante cola, e ao lado, um freezer com portas de vidro abarrotado de refrigerantes de todas as possíveis marcas.

 

    Sem ao menos dizer uma palavra e, sequer, ter dado o tempo para que eles o interrogassem sobre a sua inesperada presença, Dror, deixou o caderno sobre a mesa junto as garrafas vazias e saiu apressadamente como se nada tivesse acontecido.

 

    No dia seguinte, após todos esses anos, Dror não aparecera para seu infortúnio diário, e sequer havia avisado sobre sua ausência. As faltas se repetiram por vários dias e ninguém sabia de seu paradeiro. Souberam apenas que ele havia mudado com sua família para longe das terras dos cocos.

 

    Hoje, o número de coqueiros triplicaram desde a fuga de Dror, e seu lugar, sua função: fora absolvida por um jovem aprendiz. Os chefes continuam os mesmos, e ainda se refrescam com refrigerantes toda tarde de verão, sem falar que durante o inverno, consomem muito chocolate quente.

 

    Dror, comprou uma banca numa apreciada e abissal feira do local onde mora; vende todo tipo de frutas, legumes e verduras; diariamente, ele faz questão de conversar sobre qualquer assunto com todos seus clientes e donos de bancas vizinhas; ganha pouco mais da metade do que recebia trabalhando entre os cocos.

    Ah, sem esquecer que Dror, adora tomar refrigerante nas tardes de calor.

 

    Dror: Nome judaico masculino - Significa Liberdade. Pássaro

Homem Moderno

 

Na fatídica noite duma quinta-feira enigmática e fria, onde o vento maltratava as majestosas palmeiras que enfeitavam a fachada de um monumental prédio, rodeado de vidros espelhados, no qual se instalara há pouco tempo, uma prestigiada clínica.

 

Estranhamente neste dia, gatos e gnomos atravessavam as ruas revezando-se em perseguições - pra lá e pra cá - era como se quisessem anunciar algum acontecimento, seguindo um tipo de ritual (...)

 

Era meados de julho, por volta das 20h30, num horário estranho para uma consulta e que eu sequer havia percebido, afinal, estava em férias. Aguardava por minha vez, todo luminoso e descontraído, ao lado de minha querida esposa, admirando o gigantesco empreendimento e, totalmente contemplativo pela formosura dos móveis e no fino acabamento usado naquele refinado consultório.

 

"- Por favor, senhor, pode entrar pela porta a minha esquerda", disse a recepcionista

 

"- Muito obrigado" respondi prontamente, dirigindo-me a porta de vidro branca.

 

"- Boa noite doutor"

 

"- Boa noite Senhor! Como vai? E o que o traz até mim?"

 

"- Bem doutor... na verdade... minha mulher, preocupada e atenta em tudo... é que vem insistindo nesta consulta... e cá estou pra falarmos sobre a vasectomia. Sabe como é... já completei quarenta... tenho um filho com dezessete anos e, resumindo, depois de muito diálogo, análises e ponderações, decidimos finalmente por não mais ter filhos, e contrariar alguma moral vigente"

 

"- Senhor, ultimamente utilizamos de muita reflexão e bom senso quanto a essa delicada cirurgia - delicada, num contexto de futuro, digo... e, para quem tem menos que dois filhos ou, nenhum... para isso, será necessário que...possamos discutir amplamente o assunto "( enfim, nada que pagamento a vista, não possa resolver)

 

"- Bem senhor, aproveitando a consulta e já que chegou a tão famosa meia idade, que tal providenciarmos uns exames preventivos?"

 

"- É tem razão. Não vejo problemas" Disse eu imediatamente, pois a consulta havia sido pago mesmo, e porque não aproveitar uma geral nesta máquina dos anos 70?

 

Após os exames básicos de consultório, pediu-me o médico então: "Deite-se, por favor."

 

"- Hã... deitar? Ué... por que?" Disse eu em pensamento.

 

"- Por favor, pode baixar a bermuda". Pediu-me o médico assobiando uma musica estranha que eu já havia escutado... mas naquele momento, não me lembrava quando nem onde.

 

"- A cueca também." Disse ele.

 

"- A cueca?, mas... é... bem... é... afinal doutor... qual o problema e por que devo baixar a cueca?" Disse eu a ele sem pestanejar

 

"- Então, vamos aproveitar o ensejo e fazer o exame da próstata!" Afirmou ele, colocando as luvas e imediatamente apertando um enorme tudo e passando algo gelatinoso nos dedos. ( Tudo planejado )

 

"- Mas... mas... é que... eu... não... eu... não vim aqui pra... eu... eu... e.. o... PSA com exa... de san...? é... eu...” Instante esse que eu não conseguia sequer formar uma palavra.

 

"- Meu amigo, relaxe e dobre as pernas, por favor!" Retrucou o médico.

 

Daí em diante a formalidade já tinha ido pro saco, digo, perto do saco... sei lá...

 

E o que é pior. Onde estão todas as brincadeiras que os homens disfarçam para dizer que não terão medo? Diminuir a luz, pedir um vinho, colocar uma música, segurar no negócio do médico pra ver se é o dedo mesmo... etc, etc.

 

Pois é! Nessa hora, preso àquela sala, não ha tempo pra nada (...)

 

Eu, desesperado, dividindo meu pensamento entre sair correndo levantando a bermuda chutando a porta de vidro branca; fechar meus olhos, apertar bem o esfíncter ou, radicalizar de vez, cagando no dedo daquele filho da puta diplomado.

 

"- Puuuuuuuta Que Pariuuuuu! Porr... não, porra não, é melhor ficar no PQP mesmo!" Gritei em pensamento.

 

Lembra daquela musica que eu não me recordava? Pois então, não sei se fora o estado psicológico que eu me encontrara naquele instante, mas, agora tenho certeza que ele assobiara o tema do clássico filme: Tubarão.

 

Realmente tudo não durou mais que um ou dois minutos no relógio, mas... pra mim, matematicamente, foi elevado a eternidade!

 

"-Meu querido, pode se recuperar por ai e quando estiver pronto, poderemos conversar" Dizia o médico em voz alta na sala ao lado.

 

Depois de tudo ainda vem querendo agradar(...) "Vá pro diabo que o carregue" pensei educadamente.

 

Nada mais restando a não ser minha dignidade, dirigi-me vagarosamente até a sala onde o médico me esperava em sua mesa - cantarolando feliz da vida e, imaginei eu que o FDP poderia estar pensando: mais um, mais um e mais um...

 

Sentei-me com a metade da bunda na cadeira que já não era mais tão macia, apoiando-me na mesa daquele M A R D I T O pra eu não correr o risco de cair. (Era só o que faltava.)

 

Por fim, após uma esclarecedora conversa chegando ao tranquilo veredito de que tudo estava normal. " Ufa! pelo menos algo de compensador" Pensei.

 

Despedi-me do cidadão. Abri a porta, sem olhar para trás, sai lentamente manquitolando idêntico ao cão na cena do filme Dr. Dolittle. ( Isso, pode rir a vontade... )

 

O corredor tornou-se uma pista de atletismo em linha reta. E, quando finalmente abri a porta, avistei minha querida esposa em pé. Parei e olhei para ela com minha cara de sofrimento indisfarçável.

 

Ela que sempre foi prestativa e quase um anjo perdida na Terra, olhou-me firme por um segundo e, num flagrante de desrespeito, sem ao menos tentar disfarçar, caiu na gargalhada que até dava eco na sala.

 

 Ahhhh sua traidora!” Ela me paga, ah se paga!

 

Eu, tentando acelerar o passo com aquele monte de requisição de exames nas mãos, sem ao menos olhar para os lados e torcendo pra não encontrar nenhum conhecido... E, como se não bastasse, a ardida da recepcionista grita: "-SENHOR, POR FAVOR, PRECISO CARIMBAR OS PEDIDOS DE EXAME!"

 

Com a ultima gota de dignidade, desvio da saída com as pernas juntas pra não escorrer aquela meleca escorregadia que molhava minha bunda e vou até a recepção - entrego as folhas gigantes do plano de saúde. Alias, nunca entendi por que tamanho exagero de folha (?)

 

Sem ao menos dizer boa noite à recepcionista, saio tentando manter a postura e entrego as chaves do carro à minha querida, feliz e encantadora esposa, e digo: "- Sem qualquer comentário, pergunta ou sinal de sorriso nessa sua raia face..., por favor!, dirija o mais rápido possível e não pare nem nos semáforos"

 

 

 

Liberdade assistida

  A tia exibida do meu amigo João, disse que antes, tudo era bom! Ela tinha uma viril empregada chamada Maria, filha de dona Jandira, dom...