Na fatídica
noite duma quinta-feira enigmática e fria, onde o vento maltratava as
majestosas palmeiras que enfeitavam a fachada de um monumental prédio, rodeado
de vidros espelhados, no qual se instalara há pouco tempo, uma prestigiada
clínica.
Estranhamente
neste dia, gatos e gnomos atravessavam as ruas revezando-se em perseguições - pra lá e pra cá - era
como se quisessem anunciar algum acontecimento, seguindo um tipo de ritual
(...)
Era meados de
julho, por volta das 20h30, num horário estranho para uma consulta e que eu sequer havia percebido, afinal, estava em férias. Aguardava
por minha vez, todo luminoso e descontraído, ao lado de minha querida esposa,
admirando o gigantesco empreendimento e, totalmente contemplativo pela
formosura dos móveis e no fino acabamento usado naquele refinado consultório.
"- Por
favor, senhor, pode entrar pela porta a minha esquerda", disse a
recepcionista
"- Muito
obrigado" respondi prontamente, dirigindo-me a porta de vidro branca.
"- Boa
noite doutor"
"- Boa
noite Senhor! Como vai? E o que o traz até mim?"
"- Bem
doutor... na verdade... minha mulher, preocupada e atenta em tudo... é que vem insistindo nesta consulta... e cá
estou pra falarmos sobre a vasectomia. Sabe como é... já completei
quarenta... tenho um filho com dezessete anos e, resumindo, depois de muito diálogo, análises e ponderações, decidimos finalmente por não mais ter filhos, e contrariar alguma moral vigente"
"- Senhor, ultimamente utilizamos de muita reflexão e bom senso quanto a essa delicada cirurgia - delicada, num contexto de futuro, digo... e, para quem tem
menos que dois filhos ou, nenhum... para isso, será necessário que...possamos discutir amplamente o assunto "( enfim, nada que pagamento a vista, não possa resolver)
"- Bem
senhor, aproveitando a consulta e já que chegou a tão famosa meia idade, que
tal providenciarmos uns exames preventivos?"
"- É tem
razão. Não vejo problemas" Disse eu imediatamente, pois a consulta havia
sido pago mesmo, e porque não aproveitar uma geral nesta máquina dos anos 70?
Após os exames
básicos de consultório, pediu-me o médico então: "Deite-se, por
favor."
"- Hã...
deitar? Ué... por que?" Disse eu em pensamento.
"- Por
favor, pode baixar a bermuda". Pediu-me o médico assobiando uma musica
estranha que eu já havia escutado... mas naquele momento, não me lembrava
quando nem onde.
"- A cueca
também." Disse ele.
"- A
cueca?, mas... é... bem... é... afinal doutor... qual o problema e por que devo
baixar a cueca?" Disse eu a ele sem pestanejar
"- Então,
vamos aproveitar o ensejo e fazer o exame da próstata!" Afirmou ele,
colocando as luvas e imediatamente apertando um enorme tudo e passando algo
gelatinoso nos dedos. ( Tudo planejado )
"- Mas...
mas... é que... eu... não... eu... não vim aqui pra... eu... eu... e.. o... PSA
com exa... de san...? é... eu...” Instante esse que eu não conseguia sequer
formar uma palavra.
"- Meu
amigo, relaxe e dobre as pernas, por favor!" Retrucou o médico.
Daí em diante a
formalidade já tinha ido pro saco, digo, perto do saco... sei lá...
E o que é pior.
Onde estão todas as brincadeiras que os homens disfarçam para dizer que não
terão medo? Diminuir a luz, pedir um vinho, colocar uma música, segurar no
negócio do médico pra ver se é o dedo mesmo... etc, etc.
Pois é! Nessa
hora, preso àquela sala, não ha tempo pra nada (...)
Eu,
desesperado, dividindo meu pensamento entre sair correndo levantando a bermuda
chutando a porta de vidro branca; fechar meus olhos, apertar bem o esfíncter
ou, radicalizar de vez, cagando no dedo daquele filho da puta diplomado.
"-
Puuuuuuuta Que Pariuuuuu! Porr... não, porra não, é melhor ficar no PQP
mesmo!" Gritei em pensamento.
Lembra daquela
musica que eu não me recordava? Pois então, não sei se fora o estado
psicológico que eu me encontrara naquele instante, mas, agora tenho certeza que
ele assobiara o tema do clássico filme: Tubarão.
Realmente tudo
não durou mais que um ou dois minutos no relógio, mas... pra mim,
matematicamente, foi elevado a eternidade!
"-Meu
querido, pode se recuperar por ai e quando estiver pronto, poderemos
conversar" Dizia o médico em voz alta na sala ao lado.
Depois de tudo
ainda vem querendo agradar(...) "Vá pro diabo que o carregue" pensei
educadamente.
Nada mais
restando a não ser minha dignidade, dirigi-me vagarosamente até a sala onde o
médico me esperava em sua mesa - cantarolando feliz da vida e, imaginei eu que
o FDP poderia estar pensando: mais um, mais um e mais um...
Sentei-me com a
metade da bunda na cadeira que já não era mais tão macia, apoiando-me na mesa
daquele M A R D I T O pra eu não correr o risco de cair. (Era só o que
faltava.)
Por fim, após
uma esclarecedora conversa chegando ao tranquilo veredito de que tudo estava
normal. " Ufa! pelo menos algo de compensador" Pensei.
Despedi-me do
cidadão. Abri a porta, sem olhar para trás, sai lentamente manquitolando
idêntico ao cão na cena do filme Dr. Dolittle. ( Isso, pode rir a vontade... )
O corredor
tornou-se uma pista de atletismo em linha reta. E, quando finalmente abri a
porta, avistei minha querida esposa em pé. Parei e olhei para ela com minha
cara de sofrimento indisfarçável.
Ela que sempre
foi prestativa e quase um anjo perdida na Terra, olhou-me firme por um segundo
e, num flagrante de desrespeito, sem ao menos tentar disfarçar, caiu na
gargalhada que até dava eco na sala.
Ahhhh sua traidora!” Ela me paga, ah se paga!
Eu, tentando
acelerar o passo com aquele monte de requisição de exames nas mãos, sem ao
menos olhar para os lados e torcendo pra não encontrar nenhum conhecido... E,
como se não bastasse, a ardida da recepcionista grita: "-SENHOR, POR
FAVOR, PRECISO CARIMBAR OS PEDIDOS DE EXAME!"
Com a ultima
gota de dignidade, desvio da saída com as pernas juntas pra não escorrer aquela
meleca escorregadia que molhava minha bunda e vou até a recepção - entrego as
folhas gigantes do plano de saúde. Alias, nunca entendi por que tamanho exagero
de folha (?)
Sem ao menos
dizer boa noite à recepcionista, saio tentando manter a postura e entrego as
chaves do carro à minha querida, feliz e encantadora esposa, e digo: "-
Sem qualquer comentário, pergunta ou sinal de sorriso nessa sua raia face...,
por favor!, dirija o mais rápido possível e não pare nem nos semáforos"