quarta-feira, 2 de agosto de 2017

Vigésimo quinto

O ano era 2017. Véspera de natal numa terça-feira chuvosa. A família do menino Heitor fazia os preparativos para sua primeira ceia de natal – afinal, o pai havia recebido sua primeira promoção do condomínio luxuoso onde trabalhava há mais de vinte anos.
A noite se aproximava, e o pai ainda não havia retornado do trabalho. Porem, a família, que vivia seu momento mágico não havia percebido o deslizar do tempo.
“Mãe, será que papai esquecerá os nossos presentes?”, perguntou Heitor num rápido tom de preocupação.
“Não Heitor! Sabe como é seu pai, é mais fácil esquecer-se dele mesmo” apressou-se a mãe olhando para janela...

Lá no fundo ouvia-se o som de pássaros e a cada momento que Heitor acordava o os cantos aumentavam.
“Filho, não levante a cabeça assim tão rápido!”, ordenou uma mulher estranha que vestia uma roupa toda florida”.
“Onde está minha mãe?” sussurra Heitor, ainda perdido. Sem qualquer resposta, a mulher apenas preocupava-se em colocar água num copo plástico e leva-lo lentamente a boca de Heitor...

Passaram-se cinco anos após aquele trágico dia de véspera de natal.

Deitado em sua cama como fazia todas as noites nas vésperas de natal. Era inicio de noite, o céu abarrotado de estrelas – as cantigas natalinas ressoavam nas bocas enormes das velhas senhoras que assiduamente visitavam o local. Todo aquele barulho causava furor, e sempre terminara com um grande aperto no coração de Heitor.

Naquele conjecturado dia, Heitor não esperou um minuto sequer. Seguiu seus planos como havia delineado. Esperou e realizou cada movimento – deixando para trás seu passado corroído, e armazenando em seu ser todo ódio que um jovem não deveria carregar.
Há dois anos Heitor havia conhecido algumas pessoas que integravam uma comunidade, e que, volta e meia, faziam-se presentes no abrigo. Esse grupo vivia num lugar afastado, e tinha como mentor um homem muito rico e influente com a classe política daquela cidade.
“Seja bem-vindo a sua nova morada jovem Heitor!”, foi a única palavra proferida pelo guru ao jovem que se aviventava para uma nova era.

Próximo ao final do primeiro ano após a fuga. Exatamente, numa manhã de natal, acontecerá um terrível assassinato: um conhecido político local, havia sido assassinado numa casa de campo não muito longe da cidade. “Foi uma morte simples, sem grandes estragos” - relatava o limitado e único jornal da cidade.
Dias e meses se passaram. Habitualidade a rotina tomara conta das vidas correlatas.
Ano seguinte, e coincidentemente, numa manhã de natal - outro homem público havia sido morto numa ruela da cidade. E o sempre néscio jornaleco fazia seus curtos e nebulosos comentários; dando ênfase apenas a uma única imagem do cadáver - conseguida por um feliz e iniciante fotógrafo(...)

Outro ano... e mais um político deixará este mundo delicioso para destinar-se involuntariamente a um outro possível mundo de novidades ou, na pior das hipóteses – um lugar de sofrimento e condenação.

357 dias depois, outro cadáver aparecerá na cidade. Só que desta vez tratava-se de uma mulher. Os três defuntos tinham em comum a política, bem como a arte de se meter em escândalos corruptíveis – no entanto ambos, sem qualquer confirmação ou penalidade; já que eram brindados por brechas e pelo desastroso padecimento das leis.

Mais um findar de ano se aproximava, e as autoridades locais se mobilizavam, afinal, toda a mídia modista do país estava de prontidão. A cidade tornou-se modelo desejado àqueles que têm aversão à política como um todo. Para muitos, aquele local era o santo sepulcro às avessas e, destinado, a todo tipo de ser humano indesejável. Para o desespero das autoridades e para o folguedo jornalístico – a mente causadora de todo este pandemônio, resolve inovar; matando um cidadão não político, porém – com grandes chances de ser um deles – já que proferia-se de grande popularidade para tal.

Com o passar dos anos as árvores de natal vão sendo montadas e desmontadas; enquanto as crianças conduzidas pela obrigação do elogio e do automonitoramento da obediência - aguardam ansiosas pela chegada do velho e bom Noel junto de seu trenó carregado de presentes. Do lado adulto dito real e racional; as pessoas aguardam pela próxima vítima com base em suposições e apostas - além das intermináveis discussões do contra e a favor.

Extraordinariamente, porém previsível - o matador segue com sua perspicaz e eficiente rotina de natal. E, sem ao menos encontrar quaisquer obstáculos, seja por incompetência policial, pela necessidade de expurgação ética ou redução da concorrência, ele aplica-se ano a ano. Contado exatamente 23 pessoas eliminadas da face terrena, e que, em comum têm seu passado de vida inglória - permeados de enriquecimento ilícitos até supostos indícios criminais perante aos bens públicos os quais prometeram a representação do povo.

Sendo assim, uma boa parte da população acreditava que tal evento seria o aviso perfeito para entrada do juízo final. Com este, seriam agraciados através das mortes tidas como necessárias, a fim de que fossem libertados os excluídos de ontem e de hoje; os deslocados; os miseráveis e os desvalidos, para glória divina. E com base nisto, acreditavam que este enviado divino tão logo fosse descoberto; passaria a ser chamado de vigésimo quinto! “Donde mais poderia surgir tal criatividade, a não ser daqueles que secularmente procuram uma razão divina para existência?” Destacava o em sua primeira página o sátiro jornal da cidade.

25 de dezembro de ano de 2040, em meio a um dos maiores sistema de segurança já organizado no país; um corpo é achado num carro abandonado. O policial que chegará primeiro até o local, mostra o corpo via holograma ao delegado de plantão, dizendo: "Doutor, achamos um corpo dentro de carro roubado, e estranho, é que este corpo não é exatamente um corpo, e sim, uma caveira, e que teria sido retirado de uma cova!”, continua o policial. Após investigações, concluíram que tratava-se de um deputado que morrera de infarto fulminante enquanto fazia campanha política, no maior estilo paraquedista – àqueles que aparecem num lugar desconhecido para assegurar o maior número de votos possíveis.

Tarde do dia 24 de dezembro do ano de 2041. Um homem se apresenta na delegacia dizendo ser o matador de políticos. A notícia se espalha. Todas as televisões, inclusive o jornaleco digital, estão agora, vampirando as redondezas. A cidade está eufórica. Gritos de “eu te amo matador” e “matador para presidente” ecoam por toda cidade. Rezas, velas e promessas...

Seu nome é Heitor de 39 anos. Morador e membro da comunidade Terra. Quando criança, perdera sua família numa noite de véspera de natal. Todos foram envenenados com um peru presenteado a seu pai por um político influente e morador do condomínio onde trabalhava. Este, à época, fora absolvido, defendido por seus advogados que o peru havia sido presenteado por uma empresa fantasma com endereço desconhecido.

Heitor é preso e aguarda durante quase doze meses por seu julgamento. Com tudo, ele é absolvido por falta de provas – além do que, tornara-se um herói nacional e todos clamam por sua inserção na política, inclusive os líderes dos maiores partidos nacionais. Heitor se recusa!

25 de dezembro do ano de 2042, Para surpresa, confusão e tristeza de muitos, Heitor é achado morto numa valeta -, e em seu corpo, há um bilhete com a seguinte descrição:

“Vigésimo Quinto” Mudança de planos....Feliz Natal!


Liberdade assistida

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