O
ano era 2017. Véspera de natal numa terça-feira chuvosa. A família do menino
Heitor fazia os preparativos para sua primeira ceia de natal – afinal, o pai
havia recebido sua primeira promoção do condomínio luxuoso onde trabalhava há mais
de vinte anos.
A
noite se aproximava, e o pai ainda não havia retornado do trabalho. Porem, a
família, que vivia seu momento mágico não havia percebido o deslizar do tempo.
“Mãe,
será que papai esquecerá os nossos presentes?”, perguntou Heitor num rápido tom
de preocupação.
“Não
Heitor! Sabe como é seu pai, é mais fácil esquecer-se dele mesmo” apressou-se a
mãe olhando para janela...
Lá
no fundo ouvia-se o som de pássaros e a cada momento que Heitor acordava o os
cantos aumentavam.
“Filho,
não levante a cabeça assim tão rápido!”, ordenou uma mulher estranha que vestia
uma roupa toda florida”.
“Onde
está minha mãe?” sussurra Heitor, ainda perdido. Sem qualquer resposta, a
mulher apenas preocupava-se em colocar água num copo plástico e leva-lo
lentamente a boca de Heitor...
Passaram-se
cinco anos após aquele trágico dia de véspera de natal.
Deitado
em sua cama como fazia todas as noites nas vésperas de natal. Era inicio de
noite, o céu abarrotado de estrelas – as cantigas natalinas ressoavam nas bocas
enormes das velhas senhoras que assiduamente visitavam o local. Todo aquele
barulho causava furor, e sempre terminara com um grande aperto no coração de
Heitor.
Naquele
conjecturado dia, Heitor não esperou um minuto sequer. Seguiu seus planos como
havia delineado. Esperou e realizou cada movimento – deixando para trás seu
passado corroído, e armazenando em seu ser todo ódio que um jovem não deveria
carregar.
Há
dois anos Heitor havia conhecido algumas pessoas que integravam uma comunidade,
e que, volta e meia, faziam-se presentes no abrigo. Esse grupo vivia num lugar
afastado, e tinha como mentor um homem muito rico e influente com a classe
política daquela cidade.
“Seja
bem-vindo a sua nova morada jovem Heitor!”, foi a única palavra proferida pelo
guru ao jovem que se aviventava para uma nova era.
Próximo
ao final do primeiro ano após a fuga. Exatamente, numa manhã de natal, acontecerá
um terrível assassinato: um conhecido político local, havia sido assassinado
numa casa de campo não muito longe da cidade. “Foi uma morte simples, sem
grandes estragos” - relatava o limitado e único jornal da cidade.
Dias
e meses se passaram. Habitualidade a rotina tomara conta das vidas correlatas.
Ano
seguinte, e coincidentemente, numa manhã de natal - outro homem público havia
sido morto numa ruela da cidade. E o sempre néscio jornaleco fazia seus curtos
e nebulosos comentários; dando ênfase apenas a uma única imagem do cadáver -
conseguida por um feliz e iniciante fotógrafo(...)
Outro
ano... e mais um político deixará este mundo delicioso para destinar-se involuntariamente
a um outro possível mundo de novidades ou, na pior das hipóteses – um lugar de
sofrimento e condenação.
357
dias depois, outro cadáver aparecerá na cidade. Só que desta vez tratava-se de
uma mulher. Os três defuntos tinham em comum a política, bem como a arte de se
meter em escândalos corruptíveis – no entanto ambos, sem qualquer confirmação
ou penalidade; já que eram brindados por brechas e pelo desastroso padecimento
das leis.
Mais
um findar de ano se aproximava, e as autoridades locais se mobilizavam, afinal,
toda a mídia modista do país estava de prontidão. A cidade tornou-se modelo
desejado àqueles que têm aversão à política como um todo. Para muitos, aquele
local era o santo sepulcro às avessas e, destinado, a todo tipo de ser humano
indesejável. Para o desespero das autoridades e para o folguedo jornalístico –
a mente causadora de todo este pandemônio, resolve inovar; matando um cidadão
não político, porém – com grandes chances de ser um deles – já que proferia-se
de grande popularidade para tal.
Com
o passar dos anos as árvores de natal vão sendo montadas e desmontadas;
enquanto as crianças conduzidas pela obrigação do elogio e do automonitoramento
da obediência - aguardam ansiosas pela chegada do velho e bom Noel junto de seu
trenó carregado de presentes. Do lado adulto dito real e racional; as pessoas
aguardam pela próxima vítima com base em suposições e apostas - além das
intermináveis discussões do contra e a favor.
Extraordinariamente,
porém previsível - o matador segue com sua perspicaz e eficiente rotina de
natal. E, sem ao menos encontrar quaisquer obstáculos, seja por incompetência
policial, pela necessidade de expurgação ética ou redução da concorrência, ele
aplica-se ano a ano. Contado exatamente 23 pessoas eliminadas da face terrena,
e que, em comum têm seu passado de vida inglória - permeados de enriquecimento
ilícitos até supostos indícios criminais perante aos bens públicos os quais
prometeram a representação do povo.
Sendo
assim, uma boa parte da população acreditava que tal evento seria o aviso
perfeito para entrada do juízo final. Com este, seriam agraciados através das
mortes tidas como necessárias, a fim de que fossem libertados os excluídos de ontem
e de hoje; os deslocados; os miseráveis e os desvalidos, para glória divina. E
com base nisto, acreditavam que este enviado divino tão logo fosse descoberto;
passaria a ser chamado de vigésimo quinto! “Donde mais poderia surgir tal
criatividade, a não ser daqueles que secularmente procuram uma razão divina
para existência?” Destacava o em sua primeira página o sátiro jornal da cidade.
25
de dezembro de ano de 2040, em meio a um dos maiores sistema de segurança já
organizado no país; um corpo é achado num carro abandonado. O policial que
chegará primeiro até o local, mostra o corpo via holograma ao delegado de plantão, dizendo: "Doutor, achamos um corpo dentro de carro roubado, e estranho, é que este corpo
não é exatamente um corpo, e sim, uma caveira, e que teria sido retirado de uma
cova!”, continua o policial. Após investigações, concluíram que tratava-se de
um deputado que morrera de infarto fulminante enquanto fazia campanha política,
no maior estilo paraquedista – àqueles que aparecem num lugar desconhecido para
assegurar o maior número de votos possíveis.
Tarde
do dia 24 de dezembro do ano de 2041. Um homem se apresenta na delegacia
dizendo ser o matador de políticos. A notícia se espalha. Todas as televisões,
inclusive o jornaleco digital, estão agora, vampirando as redondezas. A cidade está
eufórica. Gritos de “eu te amo matador” e “matador para presidente” ecoam por
toda cidade. Rezas, velas e promessas...
Seu
nome é Heitor de 39 anos. Morador e membro da comunidade Terra. Quando criança,
perdera sua família numa noite de véspera de natal. Todos foram envenenados com
um peru presenteado a seu pai por um político influente e morador do condomínio
onde trabalhava. Este, à época, fora absolvido, defendido por seus advogados
que o peru havia sido presenteado por uma empresa fantasma com endereço
desconhecido.
Heitor
é preso e aguarda durante quase doze meses por seu julgamento. Com tudo, ele é
absolvido por falta de provas – além do que, tornara-se um herói nacional e todos
clamam por sua inserção na política, inclusive os líderes dos maiores partidos
nacionais. Heitor se recusa!
25
de dezembro do ano de 2042, Para surpresa, confusão e tristeza de muitos, Heitor
é achado morto numa valeta -, e em seu corpo, há um bilhete com a seguinte
descrição:
“Vigésimo
Quinto” Mudança de planos....Feliz Natal!